Llegamos hasta lejos, hasta lejos
para entender las órbitas de piedra,
los ojos apagados que aún siguen mirando,
los grandes rostros dispuestos para la eternidad.
Pablo Neruda
Ao que parece, os fatos tiveram início há cerca de um século. Conta-se que o primeiro caso confirmado do fenômeno fora o incidente ocorrido com Maria das Dores, moça muito sadia e esbelta, cujos contornos prescritos pela natureza renderam-lhe não somente o assédio de inúmeros pretensos amantes como o zelo e a vigília cerrada do pai. Já no alvorecer da juventude, não tendo ainda completado uma dúzia de primaveras, das Dores fora expressamente proibida de se ausentar da residência paterna. E que não se pense ter sido a restrição delimitada às feiras, bailes, circos, quermesses e toda espécie de atração que tanto conquistam as de sua idade; pelo que se conta, a reserva a que fora submetida a garota estendera-se até os alicerces da boa educação: a escola e a igreja. E como, por um lado, a ordem do Coronel havia sido clara: — Essa guria só mi sai daqui si fô pru altar, i cum cabra du meu gosto i assintimento. E qui um qualqué tenha u atrivimento di pensá, ao menos di pensá, ritirar ela daqui i esse há di si vê cumigo. E, por outro lado, por não haver no vilarejo tanto quem se atrevesse ir de encontro aos desígnios do velho como quem ousasse lhe pedir a mão da filha – sobretudo, depois do episódio em que um seu agregado tivera o corpo esfolado por chicote e, posteriormente, temperado com sal grosso, em vista de ter tido a audácia de realizar ao patrão semelhante pedido –, a infeliz donzela não antevia qualquer perspectiva para o fim de seu martírio.
Assim, do pouco que lhe fora dado, isto é, daquilo que o ciúme do pai concedera-lhe, tinha ela como única satisfação e consolo a miragem obtida da varanda de seu quarto; cuja construção obedecera aos rigorosos critérios do Coronel, desde o cerceamento completo do recinto, até a altura do alambrado – de maneira a não permitir que se avistasse do exterior mais do que a cabeça, e, por vezes, quando Maria punha-se na ponta dos pés, parte dos ombros da filha. Era desse sítio que a menina acompanhava atenta a vida que se lhe ia a perder pelos arredores da vizinhança: os primeiros namoricos de antigas amigas, as quais perpassavam sorridentes por sua janela aos domingos, cada qual com seu par e um sorvete, outrora, um algodão-doce nas mãos; a rotina religiosa das donas-de-casa, que matinalmente reuniam-se em frente suas portas, entre o ventilar das notícias e o correr das vassouras; a multidão que se aglomerava aos sábados em meio à rua para comercializar, em feira livre, toda espécie de utensílios. Enfim, toda essa sorte de coisas que movem uma pequena cidade e que, todavia, em face de sua cotidianidade, somente afloram o fascínio aos que se vêem delas privado.
Mas, fora também desse recinto que Maria das Dores avistara, pela vez primeira, aquele que lhe tornearia o espírito e imprimir-lhe-ia no ventre o ar de toda sua graça. Tratava-se de Gabriel Ricardo, filho bastardo de um comerciante local – que embora desconfiasse da origem obscura de sua cria, tomava-o sem restrição nos seus amores e deveres paternos. De fato, o rapaz se fazia alvo das atenções de seus concidadãos, menos por sua beleza física do que por seus trajes e modos requintados – herança dos anos passados na cidade grande, estudante das leis. Entrementes, não foi essa contingência que chamou a atenção de Maria, mas sim o fato de uma manhã terem ambos, por um instante, cruzado os olhares, ela da janela, ele da calçada, e já no segundo seguinte, antes mesmo que das Dores pudesse abaixar os olhos, fina flor de jasmim arremessada ter cruzado a fronteira da prisão que a guardava e se repousado em carícias sobre a meiga alvura de seus pés. Estarrecida, Maria pegara a flor, fechara a janela, correra para a cama e chorara por horas a fio, por sentir que, naquele preciso instante, desabrochara em sua vida os primeiros polens da paixão. Dali em diante, várias foram as flores, os doces e os recadinhos de amor que – desafiando os ecos da voz do Coronel – romperam o cárcere da donzela. A qual, por sua vez, não hesitava em retribuir com a ternura do olhar, o acenar dos dedos e o estalar de um beijo lançado pelas mãos.
Nesse compasso, o amor florescera. E quando a distância fizera-se insuficiente para comportar a disposição latente dos galhos e das flores, e quando firmes as raízes a natureza exigira seus frutos, o jovem apaixonado, disposto a utilizar-se sem reservas de sua arte diplomática, bateu na porta do Coronel. Fora essa a última vez que se vira o sorriso de Gabriel Ricardo; cujo paradeiro somente se fizera notícia seis dias depois, sobreposto às pedras do riacho, já em estado de putrefação e com ausências que muito surpreenderam os populares da cidadezinha: a fenda bucal do rapaz não constava mais de nenhuma língua nem de qualquer dente.
Imediatamente após o encontro do defunto por José Almeida – o qual, ao que tudo indica, dirigira-se até o riacho sem causas aparentes, e a quem parece ter semelhante descoberta imprimido além da repulsa e repugnância exigidas pelo caso uma mistura de ensejos de satisfação e alívio, conforme testemunhara o esboço de um sorriso nos lábios –, a notícia varrera todos os lares da região, não poupando a mais falha cavidade auditiva. Não por acaso, a derradeira parada do aviso mortífero – já portadora de uma pré-satisfação de dever cumprido – tivera lugar nas singelas orelhas de Maria das Dores. Acontece que a cidade carecia de tempo para, malgrado os impropérios e ameaças do Coronel, alojar-se consternada mercê a janela da moça; afinal, como reza costumeira em vilarejos daquela extensão, a paixão entre os amantes somente mantinha seu estatuto de segredo – ao menos até a noite em que Gabriel ainda se fazia senhor de sua língua e de seus dentes – aos olhares ávidos e atentos do pai da moça. Talvez por isso todos tenham resolvido estancar-se por ali, pactuantes de uma mesma tristeza – menos inspirada pela sorte do jovem advogado do que pela desdita do romance de das Dores – e, ao mesmo tempo, ansiosos pelo desfecho a ser conduzido pela donzela. Diz-se que, dentre os espectadores, os únicos que não tiveram os olhos banhados pelas lágrimas foram as almas do Coronel e de José Almeida.
Fora justamente ali que tivera início o que, posteriormente, os doutos sobre o assunto designariam como um caso de “esquizofrenia coletiva”. A contrariar as trágicas expectativas da multidão – que antevia potencialmente na reação de Maria a execução de lamúrias, gritos, urros de dor ou até, quem sabe, um repentino ataque contra a própria vida –, a consecução dos fatos tomara rumo imprevisto. Pelo que consta, o sofrimento de Das Dores alcançara tal magnitude que nenhum som atrevera-se lhe descolar dos lábios. E nessa condição, muda e estática, permanecera até o instante que – em único lance das mãos – rendera ao chão o leve vestido que sustinha sobre o corpo. Enquanto os contornos angelicais de Maria tratavam de clarear o aposento por completo, Das Dores, em fulgurante nudez, cruzara os braços, pousara cada uma das meigas mãos sobre os graciosos pomos que se lhe delineavam do colo, dobrara-se sobre as pernas, encurvara o aveludado corpo e repousara no chão todos seus encantos: nua, airosa, bela, singela, garbosa, esbelta, formosa, graciosa, radiante, majestosa. Perfeita a ponto de fomentar inveja a mais primorosa das deusas; visto que, conforme se supõe, naquele dia, nem mesmo Afrodite fora capaz de contemplá-la sem sentir o espinho do despeito roçar-lhe as faces.
Não obstante, a angustia ferina estreitara a tal ponto aquele jovial peito que Maria, em posição fetal, com os dedos a proteger os seios, pouco a pouco, encolhera e transformara toda sua augusta beldade em opaco reflexo. O corpo, outrora luminoso, escurecera ao mesmo compasso em que a garota decrescera; em uma cadência tão lasciva que, em pouco tempo, não ultrapassava ela a estatura dos seios que há instantes sustinha nas mãos. Quando a infeliz erguera a cabeça, até então segredada no peito, e esticara os membros, que a pouco lhe resguardara os pomos, somente se fizera avistar um pequenino pássaro, de plumagem negra e sedosa, a sacudir o corpo de baixo para cima, no hercúleo esforço de limpar as penas com seu acentuado bico vermelho. Finda a tarefa, Maria das Dores, disposta em luto perpétuo por sua única paixão, regorjeara um único trinado e alçara vôo, plena de graça, a abandonar para sempre a gaiola que por anos enclausurara-lhe a alma.
Embora o populacho não tenha presenciado a transformação de Maria das Dores em Maria das Graças, não houvera dúvida em um presente que fosse sobre a identidade da ave que, por breve instante, circundara sobre suas cabeças. E tal fora o impacto, tal fora a emoção gerada pelo desfecho daquela paixão que extrapolara os limites da existência e desafiara os desígnios da morte, que a multidão experimentara, à flor da pele, o calor daquele sentimento; e, em movimento uníssono, todos renderam-se à terra, cada qual a compreender, em sua pessoa, a extensão do mundo, a parte da criação. Quando os pés fixaram-se ao chão, e as lágrimas rebentaram-se como sementes a fecundar o solo, de cada veia despontara um broto, e de cada peito, por onde ardera um coração, rompera uma flor; assim, a vida fizera-se vida e eternizara o pólen daquele soberano amor no seio de um bosque – que brotaria para sempre os frutos do sentimento sagrado. E por ter despontado, pelo caminho traçado por Maria, radiante miscelânea de cores que nunca se consumiram, o local se imortalizara como o “bosque do arco-íris perdido”.
Ao que se sabe, somente dois dos presentes não se incorporaram àquele sublime movimento da natureza e não frutificaram na terra os desígnios do amor sagrado: o Coronel Joaquim e José Almeida.
O primeiro, ao perceber a partida da filha, consumira-se em tal medida em seu ódio que das mãos despontaram afiadas garras, dos cabelos poderosas vísceras e de sua raiva estrondos de mil vozes terríveis. E fora transtornado por todos ímpetos de morte que o Coronel vorazmente saltara em perseguição, a farejar os rastros da filha liberta; em uma busca infinda e fracassada, pelas cores de Maria, que lhe roera o âmago até o dia de seu último rugido.
Quanto a José Almeida... Sim! O José Almeida que descobrira e se regozijara com a morte de Gabriel, o José Almeida que não se emocionara perante a Fortuna desgraçada do romance de Maria, o José Almeida que se mantinha estável, o mesmo que sempre fora, antes, durante e depois dos eventos, sempre José, sempre Almeida, sempre José Almeida. Somente a ele fora dado permanecer no vilarejo quando todos já se haviam entregues ao destino e imortalizado-se em distintas espécies de arbustos e árvores. Não obstante, apesar de sua deliberada abstinência perante aquele movimento transformador, José não se fazia de todo indiferente ao concurso dos fatos. José possuía um segredo: Amou, Amava, Ama e perenemente Amará Maria das Dores. Amara-a desde a infância, quando ainda não era ela possuidora da majestosa forma que lhe confiscara a liberdade; Amou-a desde o momento em que, pela vez primeira, ao brincarem de pega-pega, sentira seu cheiro, o cheiro doce e terno do hálito divino que lhe suprimira os movimentos, extasiara-lhe as ventas e o deixara estático, indiferente ao decorrer da brincadeira. O Amor que José mantivera por Maria antecedera a beleza da carne, nascera antes que surgisse um Gabriel, concebera-o pelo Uno e resguardara-o imutável em sua eternidade: o Amor do Amor. E quem saberá o quanto lhe doera o dia em que se fizera ciente da paixão de Das Dores? Que medida poderia atingir o incomensurável? Sofrera! Muito sofrera! Mas o suportara em silêncio, mudo em seu sentimento, a esperar o decorrer da vida. E, naquele momento – quando não restara nada mais do que fora, a não ser, unicamente, ele e seu Amor –, José pusera-se a caminho, em passos solitários, à procura de Maria. Precisava encontrá-la, dizer-lhe a origem de muitas das flores que amanheceram em seu ninho e que, embora houvessem fomentado o amor pelo outro, guardavam o misterioso toque de suas mãos. Pois, quem mais, senão ele, a aceitaria? Somente José, o homem que condensava a grandeza do Amor e a humildade das carícias, não se importava e nunca se importaria com a condição assumida por Maria; por única e simples razão: seu Amor nunca lhe exigira a carne, mas, tão somente, a presença.
E mesmo quando sua marcha apresentara-se longínqua, nunca houvera em seu curso resquícios de hesitação, sempre possuidor da certeza do encontro, afinal, guiava-lhe o Amor – o Maior Amor do Mundo, o que nunca lhe fora cego, mas, pelo contrário, sempre se apresentara como bússola. Se as pernas inflamavam-lhe a pedir clemência, José as censuravam e imprimia-lhes o exemplo do espírito; bem verdade é que houvera momentos de sua peregrinação em que o corpo estivera a ponto de deixar à alma a continuação da jornada, mas José, tal qual Odisseus, batera firme no peito e o admoestara: “agüentai, ó coração, já suportastes males piores”.
E do Verbo fez-se Carne, e do desejo de José avistara-se Maria: estática, olhos cerrados, absorta em divina contemplação. Nem bem a vista delineara-lhe a imagem e o peito já correra aos saltos, mas José, somente a passos lentos aproximara-se. Da Graça, desperta de seu transe, consternara-se mediante a visão do amigo há muito ausente e erguera-se, em instinto materno, a verificar a prole. A dor de José, a mesma que quase lhe consumira ao aparecer de Gabriel, mais intensa retornara ao divisar o ovo; o resquício da paixão de Maria, que se consumara sobre a relva, no dia anterior à partida de Gabriel, em meio ao roncar do Coronel que se quedara no sono profundo do vinho. José Almeida estancara em fisgada vital, o sangue gelara-lhe nas veias, o suor congelara-lhe nas faces, os nervos retesaram-se nos músculos e o coração do rapaz fizera-se pétreo. Não pelo fato, pelo ato da possessão, mas pelo fruto, pela presença da eternidade que Gabriel imprimira no ventre da Virgem; a quem ele – o simplório José – dedicara, em sufocados gritos, todos seus pensamentos, todos seus momentos de tristezas e de alegrias, toda sua vida. Enquanto sentia José o adormecer do corpo, Maria – com um olho preso ao filho e outro fixo ao amigo – observava com curiosidade os membros que, já rígidos pelo desgosto, aos poucos se solidificavam por completo. E José, tombado em pedra, também eternizara seu amor.
A noite já ensaiava seu despontar e o filho ainda não retornara da escola. Olhara o mau tempo e a espinha da preocupação eclodira em jorros de angustia ao saber que ele não comparecera à aula. Em prantos acorrera pelo caminho diário do menino, os olhos atentos a perscrutar qualquer pista e as narinas acesas a farejar qualquer rastro. Nem bem havia iniciado o trajeto quando as águas despencaram, tornando indistintas as gotas de chuva das gotas de pranto. Não obstante, as últimas estagnaram-se mal divisara um vulto à distância – a meio caminho entre sua casa e a escola. E mesmo que os sentidos não tenham podido declarar-lhe o ansiado, os olhos de mãe delinearam com precisão a figura do filho. De fato, lá estava ele, imóvel sob a chuva, os cabelos retesados na fronte e os lábios a moverem-se em frente à grande pedra. — O qui faz aí muleque? Purquê num foi pr’escola? Num tá vêno a chuva? Vambora já pra casa! Gritara a mulher na tentativa de vencer o pandemônio provocado pela tempestade, enquanto agarrava o filho pelo braço e reconduzia-o para o recanto materno.
Somente quando chegara à soleira da residência, dera-se conta de que encontrara o filho em conversa com uma pedra; assim, curiosa, ao indagar-lhe sobre o assunto, obtivera apenas seca e crua resposta: — Não era pedra, era o José Almeida, e sem mais palavras o guri precipitara-se chuveiro adentro. Enquanto o filho banhava-se, se queixara ao pai do garoto sobre o ocorrido. O qual, por sua vez, respondera, entre baforadas de cachimbo, tratar-se de coisas de crianças; aludira ainda que, quando de sua infância, entretinha-se com qualquer episódio que se apresentasse pelo caminho: uma colônia de formigas, algum grilo de jardim e, até mesmo, permanecia horas a fio mirando o céu a procura de toda sorte de plantas, objetos e monstros que cria habitar nas nuvens. Todavia, em face da insistência e das lamúrias da mulher, que, irritada pelas divagações do marido, sapateava em dizer não ser o fato em nada semelhante à curiosidade infantil, concordara em levá-lo ao doutor no dia seguinte – menos por creditar preocupação ao caso do que para ver-se livre das ladainhas entoadas pela esposa.
Uma vez disposto em seu quarto, tomara o menino uma ponta de lápis e debruçara-se sobre o papel: precisava registrar o que há pouco soubera, o mistério que suas fatigadas retinas descolaram da pedra. Entretanto, as palavras pareciam fugir-lhe entremeio aos dedos. Em um lampejo de ansiedade, mal grafara o verbo “Havia”, quando a voz da mãe ecoara em imperativo: — Carlos vem toma sua sopa! Anda logo, antis qu’ela isfrie i cê apanhe um risfriado! Nada respondera a fim de não abortar o encadeamento que começava a germinar em sua cabeça. Desnorteado, mal rabiscara a palavra recentemente escrita quando a voz progenitora retumbara novamente, agora já dentro de seus aposentos: — Vamu logo Carlos! Sem saída, de um ímpeto, já a levantar-se do assento, ao mesmo tempo em que respondia – Já vou mãe –, anotara ele, na folha em branco, o segredo que pelo resto da vida nunca esqueceria: “Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra”.
BORBOLETA
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